Aviso é que não faltou...

A memória já não ajuda tanto a recordar com precisão a data em que o professor Vitorino Cunha, em entrevista à Rádio Luanda Antena Comercial, prognosticava um futuro desolador para o nosso basquetebol, pois era visível o abandono do paradigma do bem-fazer, que  catapultou o basquetebol angolano aos patamares conhecidos até hoje.

A memória já não ajuda tanto a recordar com precisão a data em que o professor Vitorino Cunha, em entrevista à Rádio Luanda Antena Comercial, prognosticava um futuro desolador para o nosso basquetebol, pois era visível o abandono do paradigma do bem-fazer, que  catapultou o basquetebol angolano aos patamares conhecidos até hoje.
Entre as várias razões evocadas pelo categorizado técnico destacavam-se a “invasão de jogadores e treinadores estrangeiros” que o nosso basquetebol sofria, sem que muitos deles fossem valências para ajudar a desenvolver os aspectos em que éramos deficitários, tal a posição cinco, ou se preferirem poste, que era órfão de jogadores da galáxia de Jean Jacques, David Dias, só para citar estes.
Compreendia-se, na altura, que a abastança em termos de dinheiro que os clubes tinham, sobretudo em dólares que não faltavam, bem como a ganância de se conquistar títulos à todo o custo, levou determinados dirigentes a agirem mais com emoção e coração, contrariamente a mente que deve comandar todo e qualquer processo de gestão e não só.
O “processo de importação” de tudo e mais alguma coisa, desde treinadores à jogadores, até mesmo americanos, como dito atrás, em nada serviu os angolanos, aliás, saíram vencedores os estrangeiros, que arregimentar para as suas contas pessoais balúrdios de dólares/euros pagos de forma desmedida, pensando que a fartura financeira fosse durar para toda a vida e mais seis meses, como digo em tom de brincadeira.
Expressando um sentimento de mágoa, Vitorino Cunha apontava como erro crasso o abandono do paradigma da defesa agressiva e saídas rápidas para o contra ataque que são, no fundo, o ADN do basquetebol angolano, dada a característica morfológica dos jogadores e outras nuances socioculturais.
Com a situação acima referida, passou ser normal assistir qualquer equipa marcar cerca de 80 pontos ao adversário nem que esse fosse o 1º de Agosto ou Petro de Luanda, aqui exemplificadas como as que sempre tiveram o melhor leque de jogadores, salvo algumas intromissões do Atlético Sport Aviação (ASA) e Interclube, que de quando em quando davam o ar da sua graça. Atingir a chapa cem deixou de ser notícia, dada a frequência com que os clubes apostavam no ataque, e não poucas vezes na irracionalidade de jogadores que mais olhavam para o seu umbigo, passe a expressão, e fossem tentados a marcar o maior número de pontos, apenas para gáudio pessoal.
Vilipendiados os fundamentos que alicerçaram o percurso vitorioso dos angolanos, que em África eram os papões incontornáveis e nas provas intercontinentais faziam figura agradáveis, apesar de não conquistarem o pódio, do sucesso ao fracasso foi apenas um meio passo, em marcha que todos assistimos com a máxima veleidade. Mais do que isso, as equipas deixaram de formar novos talentos e passaram a viver de jogadores que apareciam de forma esporádica, muitos deles descobertos por iniciativas como a da Associação de Basquetebol de Rua (onde andará?) e catapultados para os chamados “clubes grandes”, os tais que dominam o modalidade da «bola ao cesto» em Angola.
Noves fora isso, o amadorismo que irrompeu as instituições desportivas que a dada altura parecem o “porto seguro” para os dirigentes fazer o seu pé-de-meia, contribuiu para a quebra dos indicadores que o basquetebol doméstico granjeou ao longo do tempo, na base de muito esforço e espírito de profissionalismo dos seus agentes, sobretudo àqueles que deram tudo e mais o resto, para que fossem conquistadas as vitórias que apenas restam para a história narrar.
Como não faltou aviso, chegamos ao ponto de termos um basquetebol altamente descaracterizado, à todos os níveis vexatório, e com exibições pálidas como as que estamos a assistir no Campeonato do Mundo que decorre na China, em que na jornada inaugural fomos copiosamente humilhados pela Sérvia, sem que para cá sejam chamados aspectos da diferença entre as selecções, que de facto existem.
Por serem ignorados os conselhos do professor Vitorino Cunha e de outros “expert” em matéria da «bola ao cesto», eis-nos aqui expostos à realidade de já não sermos aquela selecção que impõe medo e respeito a nível do continente Berço da Humanidade, e que nos palcos mundiais joga com dignidade, personalidade, perfil e representa bem os símbolos e cores da República de Angola. De quem é a culpa? Aviso é que não faltou. Carlos Calongo